(des)Construindo erros

– Isto aqui saiu errado, não?

Não raro, algum projeto gráfico de minha autoria é alvo de tal comentário.

– Não, não saiu. É assim mesmo.

E sorrio satisfeito. Afinal, o estranhamento significa que quem perguntou acaba de ver algo, até então, desconhecido. Algo diferente do habitual. Nesses momentos, outorgo a mim mesmo a nobre alcunha de “produtor de cultura visual”.

Não importa qual projeto. Mesmo porque as discussões que buscam definir o quanto de “arte” existe em design me causam terríveis bocejos, pois, em geral, desembocam no senso comum de que esta brochura que você está segurando (desenhada por mim) tem mais valor “cultural” do que o amaciante de roupas guardado na sua despensa (cuja embalagem, muito provavelmente, também foi desenhada por mim), pelo simples fato de o tema deste pertencer à área de serviço e o daquela, a museus. Atribuem o valor de uma coisa (o design) pelo valor já estabelecido de outra e dividem design entre “autoral” versus “comercial”, quando, particularmente, não me parece muito saudável (nem inteligente) definir, a priori, quais os objetos autorizados a transmitir cultura visual.

Evito, porém, generalizações rasteiras, como “Tudo tem seu valor” ou similares. O motivo de minha discórdia é outro: não considero que todas as pessoas possuam apetites ou necessidades idênticas. Acreditar, portanto, que algo seja assimilado sempre da mesma maneira é, na melhor das hipóteses, um inocente devaneio. Não se pode eliminar o contexto.

– Isto aqui saiu errado, não?

Não, não saiu. E se a pergunta partiu de algum de meus assistentes, depois de sorrir, repenso meu processo de seleção de currículos. Afinal, estranhar é uma coisa; achar que está “errado”, outra. O mocinho (ou mocinha) é um jovem designer gráfico, devidamente versado naquilo que se habituou classificar como “cultura visual”: anos na faculdade recebendo teoria e prática das mais diversas linguagens visuais. Aulas de história da arte. Visitas frequentes a sites de fotos e animações experimentais. Ilustrações contemporâneas no fundo de tela do computador, indumentária “com design” a tiracolo (de uma bolsa Marc Jacobs a um iPhone, dependendo da proposta estilística de cada um). Também atualizam seus facebooks e twitters sem parar, para deleite de quarentões babões a elogiar como os jovens de hoje são “antenados”.

– Isto aqui saiu errado, não?

Tão antenados… Na era do conforto multimídia e da busca pelo entretenimento eterno, nos comportamos tais quais crianças mimadas e logo rotulamos como errado tudo aquilo que não faz parte de nosso cubículo (que, autocondescendentes ao extremo, preferimos denominar  “nosso conhecimento”).

Ora, adquirir cultura visual significa olhar um monte de coisas e dizer “Que legal”? Não. Exibir os atestados de “portador de cultura visual” já aceitos por todos? Também não. Adquirir cultura visual significa apre(e)nder o desconhecido. E, para mim (não tenho estofo nem arrogância suficiente para falar em nome de todos, desculpe-me), desconhecido é apenas aquilo que me incomoda. Aquilo que me revela algo até então nunca visto.

“Para que uma coisa seja interessante, basta olhá-la por muito tempo”, disse (citando de memória) Flaubert. Como “Deves mudar a alma, não o lugar”, Sêneca, e “Só a percepção grosseira e errônea põe tudo no objeto, quando tudo está no espírito”, Proust, a fim de completar um parágrafo erudito que embase a tese: danem-se as coisas. Elas não têm valor nenhum em si. Tudo está em nossa percepção. Em manter nossos olhos bem abertos e dispostos, o tempo inteiro.

Vale o que entra por vias racionais e é prontamente compreendido; vale o que assalta os sentidos sem explicações lógicas. Vale no museu, vale no ponto de ônibus. O único pré-requisito para que eu considere estar “adquirindo cultura visual”: ver algo que nunca vi. Às vezes gera angústia; às vezes, êxtase – depende do quanto minha razão prontamente decodifica daquilo. E, no fundo, minha reação imediata não tem a menor importância. Como também não faz diferença o quanto aquilo vai ao encontro dos meus gostos e preferências pessoais.

Se procuramos conforto, nada encontramos. E entretenimento – seja o assumido, na novela das oito, ou o maquiado com verniz “cultural”, grande praga contemporânea – é conforto. É feito para distrair a cabeça, não para chacoalhá-la.

– Isto aqui saiu errado, não?

Não, não saiu. Este texto é assim mesmo. Metade de uma cor e metade de outra.

 Texto escrito para o ciclo Arte contemporânea e educação — Cultura visual do qual participo neste sábado 04 Set na Caixa Cultural SP, 9h30 da manhã.

(O final soa um tanto sem sentido quando reproduzido aqui, mas a brochura que desenhei para o evento — na qual o texto será impresso — traz colunas de texto metade de uma cor, metade de outra.)

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9 respostas para (des)Construindo erros

  1. Parabéns pelo texto Gustavo! Sair dessa zona de conforto é requisito indispensável para um bom design.

  2. Jacson Querubin disse:

    porra Gustavo, vamos trazer estas conversas aqui pro Paraná!

    Só fica aí em sampa!

    Matou a pau, há muito papagaio (não só no design, em tudo). A galera prefere ficar no conforto dos clássicos e não arriscar. Arrisca!

    ________________________

  3. m. disse:

    terminei de ler o manual do paulistano moderno e descolado ontem e adorei. daí, fui te caçar na internet e vim parar aqui. ótimo texto! vou te acompanhar 😉 beijos brasilienses! =*

    • Sério que tu mora em Brasília? Eu tô morando aqui, e como transito no meio das “Artes” e da área de “Humanas” acadêmica, tô de saco cheio da autonomia cerceada pelo MD-way-of-life… E, copiando outra postagem minha, que enfim resume: Meu impulso de criação – em sentido mais amplo, indo além da arte e da academia – não recai em nada fácil, muito menos palatável (e pelamor! não estou com esta afirmação paradoxalmente posicionando-me como um cult, hipster, afetado, ou o diabo-que-for). Ir contra o mainstream? Ha, isso é fichinha. Mas e quando também questionamos o universo alternativo? Já andei por círculos vanguardistas, dos descolados, hoje não tenho mais saco, são tudo farinha do mesmo saco. E meu lugar é onde há lugar para a autenticidade, não cabo em rótulos, não seria diferente quanto ao alternative-way-of-life. Este foi abocanhado pela lógica do consumo. Nada de compromisso maior com a autonomia de idéias, o lance é consumir o fetiche da alternatividade, cultuar o fasma de vanguarda; se idéias originais pintarem em meio a todo esse pacotinho, aí fechou.

      A poetisa sem amigos hoje é a cultuada pela *galera* independente. O cara da orelha também não escapou dessa. E Bukowski? Huahuahuahua… No mercado alternativês surge como ícone cultcultuado pelo tipinho de gente afetada a artista (veja bem, não disse “gente artista”) que ele abominava. Mas isso não vem ao caso nesse mundo pós-moderno onde tudo é fluido e não tem compromisso com a profundidade, afinal o que é hoje já não é amanhã. Os mitos são criados para serem consumidos. Ser considerado persona non grata, chato pra caralho, ou virar “genial”… isso paira à mercê dos caprichos do consumo cultural.

      Daí o meu lugar é um não-lugar. É o não-lugar entre o mainstream e o…mainstream em sua prole travestida de alternativos, os filhos do mainstream. Eu sou uma farsa pós-moderna. Algumas vezes escrevi a contragosto dissertações pós-modernas que me foram infinitamente mais rápidas e fáceis de escrever que as antiquadas racionais, já que despidas de coerência e de solidez de argumentação (afinal, isto nem importa mais considerar né). Para minha surpresa, recebia – dos mesmos professores… – naquelas pontuações muito mais elevadas do que nestas segundas (as sinceras e empenhadas), e ainda com a vantagem de não ficar me indispondo e recebendo críticas de quem julga o valor das idéias por seu frescor. Mas eu não sou uma deslumbrada que troca um old-school bom por um new-school fuleiro com capinha bacana. Sou uma masoquista que prefere ser incompreendida do que ter a autonomia cerceada em seus discursos.

      Pra finalizar, cito a Wikipedia, sem medo de não ser cult: ” [hipster, mas poderia ser “MD”:] indivíduo cujo próprio existir se afirma na busca por se ajustar ao presente esvaziado pelo fluxo incessante de atualizações de modelo que a internet proporciona, e que no processo acaba perdendo a própria noção de sujeito, virando mais um elemento na cadeia, um meme ambulante, um ser caricato em seu medo de descobrir que está “off”, “offline”, fora do loop, do círculo, arriscando-se, portanto, a se deixar ver como de fato é: apenas uma pessoa comum, como qualquer outra, de carne, pele, e ossos”.
      Enfim, um sub-produto da sociedade de consumo que se reflete, inclusive, no hiper-consumo artístico-cultural.
      Alguma semelhança com nossa geração pós-moderna?

  4. dedos.info disse:

    Gostei muito do post, não está muito longe do que acontece nos restritos círculos da arte com A maiúsculo.
    Achei seu blog pois estou com o livro “Morte aos papagaios” em mãos aqui na biblioteca do CCSP, e gostei muito, vim parabenizá-lo.
    Um abraço!

  5. Fernanda disse:

    PQP!!! vai ser genial assim…!
    Texto irretocável!!
    Parabéns. vou acompanhar o blog.
    Abs

    • Gustavo Piqueira disse:

      oi, Fernanda

      Que bom que gostou. Mas, como o blog é voltado para meus livros, acho saudável lhe avisar que o conteúdo está – 99% – um pouco longe do ‘genial’…

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