Manifesto

Lanço aqui um furioso manifesto contra este jornal. Sim, este mesmo. Folha de S. Paulo. Espero desencadear uma onda devastadora, que obrigue o periódico a eliminar, imediatamente, os dois emissários de Satã que vêm, encartados, todo maldito domingo. Venha, leitor! Junte-se a mim nesta cruzada!

Do que eu estou falando? Como assim? Os emissários de Satã, ora. Bem aí, a seu lado. Não está vendo? “Veiculos 1” e “Veículos 2”, posando de inofensivos cadernos. Aproveitando-se de sua inocência para lhe obrigar a adquirir letais emissores de carbono. Enxergou agora? Enxergou. Então, pronto. Pode mandar um e-mail para a diretoria do jornal. O endereço? Deve estar na seção “Expediente”. Página 2, primeiro caderno. E que tal, a fim de consolidar o movimento, padronizarmos a mensagem? Minha sugestão: “ELIMINEM OS CLASSIFICADOS DE VEÍCULOS, SEUS PORCOS ASSASSINOS!” Gostou? Eu também.

Já adivinhou? Sim! Este é mais um texto clichê defendendo o uso da bicicleta. Claro. Afinal, o planeta, coitadinho, tosse em agonia.  Precisamos fazer nossa parte. E tornar nossa querida Amsterdã um modelo de cidadania para o mundo. Vamos lá! Mexa-se, molenga! Troque seu carro por uma “bike”! O quê? Qual o problema? Ah, é… Não estamos em Amsterdã… Verdade. Mas isso é mero detalhe. Mero detalhe.

Foi exatamente o que falei para Soraya, que trabalha comigo. Mero detalhe. “Mas eu moro em Guarulhos. Teria que atravessar a Marginal Tietê inteira de bicicleta, todo dia, para vir trabalhar?” Acorda, Soraya! Se não o fizer, como nossa amada Berlim se livrará dos poluentes? Como?

Por sorte, sou bem informado e trago sempre à mão uma alternativa sustentável. Faça assim, querida: pedale da sua casa até o Metrô (e que Metrô, hein? Só mesmo aqui em Paris para dispormos de um Metrô tão bom…). Daí, deixe a bicicleta num estacionamento público e siga de transporte coletivo. Estacionamentos públicos são uma ótima idéia, Soraya. Ótima. Afinal, nossos ladrões andam de olho em itens bem mais valiosos do que bicicletas. Tampas de bueiro, por exemplo. Seja cidadã, mulher! Cidadã! Barcelona agradece, viu? Barcelona agradece.

A mesquinha, porém, não se rende. “E para desviar dos motoboys?” Chega, Soraya. Chega. Saia dessa bolha de segurança burguesinha e encare a cidade de frente! Com tudo o que ela nos mostra. “Burguesinha? Eu? Sou a recepcionista daqui, lembra? A recepcionista.” Que preguiça, Soraya. Que preguiça. Seu egoísmo me dá náuseas, sabia? Náuseas. Olha, desisto. Desisto.

Mais vale partir para a ação em veículos esclarecidos, como este. Onde acredito ser possível encontrar pessoas com quem compartilhar a missão de transformar Estocolmo num lugar mais humano. Vamos lá? “ELIMINEM OS CLASSIFICADOS DE VEÍCULOS, SEUS PORCOS ASSASSINOS!”

Ou você conhece algum modo mais efetivo de se resolver problemas reais do que papagaiar idéias prontas?

Texto enviado para a Folha de S. Paulo em outubro de 2008, e recusado (bom, talvez por motivos óbvios, não?)

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2 respostas para Manifesto

  1. Lucia disse:

    Pois é, com um índice tão alto de morte de ciclista por ano, fica mesmo complicado!

  2. Pingback: “Sou contra esse mané” | gustavopiqueira.wordpress.com

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